6 de ago de 2009

Parte III - O Grande Urso

Uivo-dos-Ventos corre em direção ao companheiro caído a fim de carregá-lo para perto das ardentes e intensas chamas emanadas da fogueira, a qual encontra-se poucos metros adiante. Ajoelha-se lentamente e coloca Garth frente às labaredas, sentando-se comodamente ao seu lado. Após, assume sua forma lupina, gesto repetido por John e Zareb.

Angústia, incertezas, desconfiança. Alguns dos sentimentos que pairam acima do constrangedor silêncio entre os filhotes, agora reunidos em torno do fogo. O olhar profundamente misterioso de Zareb repousa sobre o Fianna incapacitado. Apesar de sentir-se preso ao acompanhar a atual matilha, devido sua natureza livre e inconstante, algo dentro do Peregrino pulsa fortemente: seu amor por Gaia. E é essa mesma força que o faz quebrar o silêncio com seu suave tom de voz:

- Creio... – ele faz uma pausa – que não conseguiremos seguir sem ajuda adequada. Estamos feridos. Além disso, dois de nós fomos maculados pelo veneno da Maldita Serpente e o Lua Cheia perdeu um dos olhos... Irei buscar um auxílio maior no Mundo Espiritual...

Pondo-se rapidamente sobre as quatro patas, o lobo negro fita calmamente a pequena poça d’água, originada do gradual derretimento da neve pelo calor da fogueira. Ergue uma das patas e a penetra instantaneamente na água. Essa, porém, não agita-se em respingos diversos, como de costume. Permanece inerte, abrigando amistosamente a magra pata do Lua Nova, semelhante a um portal. E, de fato, é esse seu papel: um portal espiritual para o mundo gêmeo daquele conhecido por nós, a Umbra. Faz isso com todos os membros de seu corpo, até ter desaparecido por completo.

O Wendigo, depois de presenciar a cena, ergue-se e caminha em direção à poça. Olha para o Meia-Lua e diz:

- Peladinho, cuide de Garth. Irei ajudar Zareb em sua busca.

- Peladinho? Não acredito que terei de agüentar isso...

Uivo-dos-Ventos dá uma risadinha maliciosa para o companheiro. John Doe lança um olhar de reprovação, mas aproxima-se de Garth e põe-se a guardar o corpo do amigo, enquanto o Galliard parte. Em poucos segundos, Uivo-dos-Ventos encontra Zareb.

A sensação experimentada por ambos é inexplicável. As cores e formas do mundo físico agora alternam-se em uma dança hipnotizadora. Conseguem ver os amigos deixados para trás e os Dançarinos da Espiral Negra derrubados. Seus passos agora alcançam a velocidade de um pensamento, e a afinidade com a selvagem Wild parece aumentar. Adentram ainda mais o reino espiritual e, por fim, encontram-se em um lugar repleto de névoa em constante movimento. Chegaram ao seu destino, a Umbra Rasa.

- Por favor, grandes espíritos da natureza. Há algum de vocês que possa nos ajudar...? – pronunciou Zareb.

Subitamente, um pequeno rato sobe pelas patas azeviches do Peregrino, cochichando nos ouvidos dele:

- Ei, cara. Eu posso te ajudar.... ‘tá afim? Vai aceitar?

Antes que o Lua Nova pudesse dizer qualquer coisa, o Galliard toma a palavra:

- Não queremos nada de você. Sua ajuda não serve a nosso propósito.

- Ah, é? – replicou o animalzinho – Então que se danem vocês!

O ratinho parte rapidamente. Zareb, surpreso, indaga:

- Por que você fez isso?

Uivo-dos-Ventos, calmamente, responde:

- Ora, Zareb. Ele não nos seria útil. O que um covarde rato poderia fazer por nós nesse momento? Deixe-me tentar chamar por alguém...

O Peregrino silencia-se, como de costume.

Entre o vaivém da rápida névoa, Uivo-dos-Ventos observa a silhueta de um grande urso, a alguns passos de distância. Em poucos segundos, eles estão frente a frente.

- Por que me procuras, filhote? Sabes que os Garou já causaram muita dor aos meus filhos. Então, por que ainda me procuras? – rosna o urso.

- Grande Espírito Urso. Venho dos Wendigo, povo sempre respeitoso e admirador de teus filhos. Busco por ti pois preciso de ajuda. Minha matilha está ferida. Temos a missão de salvar um caern do Irmão-do-Meio, o qual sacrificou-se por toda a América. Por isso, Grande Urso, peço tua ajuda. Tu és o único possuidor do dom da cura e da sabedoria necessária para usá-lo. Eu imploro, Grande Urso, ajude a mim e meus amigos!

O Pai dos Gurahl pára por um momento, pasmo com o apelo sincero do jovem Garou. Resolver atender o que lhe foi pedido. Afinal, apesar de toda a dor e ódio trazidos pela Guerra da Fúria, lembra o quão próximos já foram os Gurahl de seus primos Garou. Ademais, o pequeno tinha razão. Os dois irmãos da América ainda respeitam o povo-urso e isso é uma grande qualidade.

- Eu farei isso por você, jovem Wendigo. Espero que através de minha ajuda consigam atingir seu nobre objetivo.

Uivo-dos-Ventos e Zareb agradecem, voltando ao mundo físico em alguns minutos. De repente, as feridas abertas dos filhotes fecham-se como por meio de mágica, e o único olho do Fianna abre-se lentamente.

- Eu... não... sei... eu... não consigo... enxergar... – balbuciava Garth.

Emocionados, os membros da matilha baixaram suas cabeças. Porém, depois de alguns minutos, ouvem novamente a voz de Garth, acompanhada de baixos risos:

- Hehehe... serei... mais respeitado...daqui... por diante. Ó...ti... mo!

3 comentários:

Rangel disse...

Muito bom, agora sim "Garth caolho" heheheh
Espero por mais... =]

Alex disse...

Digamos que agora eu vejo as coisas por outro ângulo...

Túlio d Bard disse...

A campanha dessa história ainda tá rolando ou vocês já chegaram ao fim?